Á 1 da manhã de dia 27 de Outubro de 2014 deste o teu último suspiro.
Faz hoje um ano que fiquei sem ti. Que morreste nos meus braços e me deixaste ao fim de 16 anos de uma amizade sem limites.
Ainda me lembro quando vieste cá para casa. Tinhas 4 semanas. Nasceste a 15 de Setembro e os meus pais (os nossos pais) deixaram-me ficar contigo como prenda de anos. Nasceste no terraço dos meus avós e apaixonei-me por ti mal te vi. Vieste pequenina, debaixo do meu casaco de fato de treino tinha eu 11 anos. Fizeste parte da minha adolescência, da minha fase pré adulto e já adulto.
Foste a minha confidente que me ouvia sem dizer nada. Foste e serás sempre a minha melhor amiga.
Tenho saudades de adormecer contigo enrolada nas minhas pernas. De chegar a casa e te ver a vires ter comigo para me dizeres olá.
Passaste por muito. Passámos por muito.
Partiste nos meus braços. Nos braços daquele que escolheste como teu "dono", coisa que nunca fui porque sempre fui ter irmão.
Queria mais 16 anos contigo. Muitos mais. O que me tranquiliza é que tiveste uma boa vida. Foste feliz. Foste bem tratada. Foste e serás a minha princesa.
Sinto tanto a tua falta. Tenho tantas saudades tuas.
Estou mortinho para que o meu afilhado tenha idade para ver este filme comigo. Este e tantos outros da Disney.
O que vale é que ele já está quase a fazer 1 ano.
P.S.: Nota-se assim tanto que estou mortinho para ser pai?
Fez este ano (Março) 10 anos que saí do armário e contei aos meus pais e amigos mais íntimos que era homossexual, mas por motivos de doença a minha mãe foi-me pedindo para adiar a conversa com os meus avós maternos.
Os meus avós maternos criaram-me e educaram-me desde os 3 meses até sensivelmente aos 18 anos. Cresci com eles, passava a vida na casa deles enquanto os meus pais trabalhavam e no verão ia sempre de férias com eles também (atenção eu estava com os meus pais sempre ao final do dia e sempre quando eles tinham férias!).
Apesar de saber do que gosto desde cedo, mais ou menos desde os 7 anos, tive as minhas namoradas e algumas cheguei a apresentar à família. Com 17 anos comecei a namorar com o R e assumi-me perante os meus pais e perante (quase) toda a gente.
Sempre tive medo da reacção dos meus avós. O meu avô sempre foi muito austero, mais com as filhas do que com os netos, mas comigo a relação é diferente. Sou o único neto homem dele e o que mais tempo passou com ele.
Lembro-me de assistir ao "Quem quer ser milionário" antes de ir para a escola primária e discutir com ele quem tinha razão antes de sabermos a resposta certa. Foi ele que me ensinou a contar, escrever e ler antes de ir para a escola e incutiu em mim o amor pela Natureza, História e demais Ciências.
A minha avó faria tudo por mim e já mo disse. Sente-se minha mãe porque foi ela que me criou. Sempre me ensinou a ser justo, a perdoar, a ser feliz e a ser eu. Já me disse que nas minhas veias corre o sangue quente da família dela e que não há coisa melhor que essa (realmente eu tenho muito pouco do lado paterno).
Ontem, após 10 anos contei aos meus avós. Eles vieram de férias e eu fui lá a casa dar um beijinho.
Estava nervoso. Mais nervoso do que quando contei aos meus pais. Mas contei. Tenho (quase) 27 anos e já não sou uma criança mas parecia. Tremia e tinha medo que a reacção não fosse positiva. Mas foi. E deu-me vontade de chorar. Contei a verdade, contei dos planos que temos a longo prazo e ficaram felizes. Não vou contar a conversa toda, até porque foi longa, mas vou apenas transcrever a reacção do meu avô que me chocou pela positiva:
LTB: Eu estou em pé porque quero falar com vocês. Avó: Então fala. LTB: Deixa o avô acabar de comer. (estava com medo que ele se engasgasse) Avô: Se tiver a ver com mulheres aceito. Olhei para o lado em pânico, sorri e olhei para ele de novo. Avô olha-me nos olhos, pára de comer e diz: Aceito na mesma.
Eu não precisei de verbalizar. O meu olhar disse-lhe tudo.
Depois de falarmos um bocadinho beijaram-me e abraçaram-me.
Custou mas foi. Se eu já não tinha problemas com a minha sexualidade e não escondia de ninguém, nem no emprego, nem na faculdade, agora não tenho mesmo nada que me faça esconder.