Fez este ano (Março) 10 anos que saí do armário e contei aos meus pais e amigos mais íntimos que era homossexual, mas por motivos de doença a minha mãe foi-me pedindo para adiar a conversa com os meus avós maternos.
Os meus avós maternos criaram-me e educaram-me desde os 3 meses até sensivelmente aos 18 anos. Cresci com eles, passava a vida na casa deles enquanto os meus pais trabalhavam e no verão ia sempre de férias com eles também (atenção eu estava com os meus pais sempre ao final do dia e sempre quando eles tinham férias!).
Apesar de saber do que gosto desde cedo, mais ou menos desde os 7 anos, tive as minhas namoradas e algumas cheguei a apresentar à família. Com 17 anos comecei a namorar com o R e assumi-me perante os meus pais e perante (quase) toda a gente.
Sempre tive medo da reacção dos meus avós. O meu avô sempre foi muito austero, mais com as filhas do que com os netos, mas comigo a relação é diferente. Sou o único neto homem dele e o que mais tempo passou com ele.
Lembro-me de assistir ao "Quem quer ser milionário" antes de ir para a escola primária e discutir com ele quem tinha razão antes de sabermos a resposta certa. Foi ele que me ensinou a contar, escrever e ler antes de ir para a escola e incutiu em mim o amor pela Natureza, História e demais Ciências.
A minha avó faria tudo por mim e já mo disse. Sente-se minha mãe porque foi ela que me criou. Sempre me ensinou a ser justo, a perdoar, a ser feliz e a ser eu. Já me disse que nas minhas veias corre o sangue quente da família dela e que não há coisa melhor que essa (realmente eu tenho muito pouco do lado paterno).
Ontem, após 10 anos contei aos meus avós. Eles vieram de férias e eu fui lá a casa dar um beijinho.
Estava nervoso. Mais nervoso do que quando contei aos meus pais. Mas contei. Tenho (quase) 27 anos e já não sou uma criança mas parecia. Tremia e tinha medo que a reacção não fosse positiva. Mas foi. E deu-me vontade de chorar. Contei a verdade, contei dos planos que temos a longo prazo e ficaram felizes. Não vou contar a conversa toda, até porque foi longa, mas vou apenas transcrever a reacção do meu avô que me chocou pela positiva:
LTB: Eu estou em pé porque quero falar com vocês.
Avó: Então fala.
LTB: Deixa o avô acabar de comer. (estava com medo que ele se engasgasse)
Avô: Se tiver a ver com mulheres aceito.
Olhei para o lado em pânico, sorri e olhei para ele de novo.
Avô olha-me nos olhos, pára de comer e diz: Aceito na mesma.
Eu não precisei de verbalizar. O meu olhar disse-lhe tudo.
Depois de falarmos um bocadinho beijaram-me e abraçaram-me.
Custou mas foi. Se eu já não tinha problemas com a minha sexualidade e não escondia de ninguém, nem no emprego, nem na faculdade, agora não tenho mesmo nada que me faça esconder.
Kisses & Hugz,
Litte Tiago Boy



